Surgiu, há algumas semanas, um
relatório do Banco Mundial sobre o chamado Brain Drain: a "fuga" de trabalhadores qualificados para o exterior.
Naturalmente sou bastante sensível a esta questão, por entrar nesta definição de trabalhadores qualificados (com formação ao nível do ensino superior) e estar desde há um ano no estrangeiro.
Apesar de tudo, no meu caso, considero que não se trata bem de "estar no estrangeiro", por estar em Bruxelas. Sendo Bruxelas a capital europeia, não é mais do que uma extensão dos nossos próprios países. Não será muito diferente de, como acontece num conjunto de profissões, alguém ter de se mudar para Lisboa, pelo facto de esta ser a capital do País.
O relatório, do qual tive conhecimento através do
"Sob a Estrela do Norte" refere que 19,5% dos quadros técnicos portugueses vivem no estrangeiro. Aprofudando a questão, encontro no Portugal Diário um
artigo sobre o tema e achei curiosos os comentários que lá se podem ler.
Aparte algumas excepções, são bastante depreciativos para o país e para o estado das "coisas". Pior, parece-me que esse estado de espírito é, neste momento, dominante em Portugal.
Já havia sentido isso quando decidi aceitar um trabalho em Bruxelas. Desde familia a amigos, ouvi comentários de que fazia muito bem, de que o país já não interessava a ninguém e que se podessem fariam o mesmo.
Não foi por isso que deixei o o país. Deixei-o por uma questão de realização pessoal. Há bastantes anos que sentia necessidade de uma experiência no estrangeiro, de viver uma experiência profissional intercultural, de alargar horizontes. Isso não o podia fazer em Portugal porque é o meu país e não por causa do estado do mesmo.
E julgo que de facto esta experiência me ajuda a alargar horizontes, nomeadamente contactando com realidades diferentes, mesmo que através de entrepostas pessoas.
Isto para dizer que cada vez mais me convenço de que se geram um conjunto de mitos sobre a situação em Portugal em comparação com o estrangeiro. Apenas porque muitos dos problemas que vivemos em Portugal existem também em outros países.
Posso referir que ainda há algumas semanas discutiamos estas questões com um finlandês em que ele referia, entre outros, problemas provocados por baixas remunerações (para o standard do país) em profissões qualificadas ligadas ao sector público, como acontecia com professores ou enfermeiros.
Na Bélgica, nos finais de Outubro, houve uma greve geral, além de várias parciais, principalmente no sector dos transportes, essencialmente devido ao corte nas regalias sociais e alterações ao regime de reformas.
Na Espanha a taxa de desemprego, não só entre licenciados (embora esteja a descrescer) é das mais altas da Europa e continua a ser um drama nacional. Tal como os problemas com a habitação, devido a um crescimento brutal dos preços, derivado da especulação imobiliária, principalmente nos ultímos dez anos.
No Reino Unido o abandono escolar e a delinquência juvenil (abuso de àlcool e drogas) são um pesadelo irresolúvel para os políticos de sucessivos Governos.
Já para não referir aos problemas que se têm verificado em França, que rapidamente se alastraram a outros países europeus.
Chega?
Para mim o problema em Portugal é que vivemos a olhar para o lado, cobiçando o que os outros têm e nós não, sejam os outros países da UE ou habitantes do bairro.
Penso que no início da integração europeia sentiamos o contentamento de vermos as coisas melhores de ano para ano. A determinado momento passamos a olhar para o lado, frustando-nos pela comparação entre o que os outros tinham e nós não. E assim continuamos...
Acho que nos faz falta parar e gozar o que já temos, aproveitando para descobrir o que é essa coisa de viver feliz. E então, calmamente, contribuirmos para corrigir os podres que nos rodeiam!
Isto tudo porque receio que o nosso problema não esteja no "Brain Drain" do país, mas numa lenta e angustiante morte cerebral!
P.S.: Estando em Bruxelas, arrisco-me ao comentário, que recebo por vezes aquando de discussões similares: "Isso é muito fácil de dizer estando fora". É, é mais fácil de dizer porque acho que a distância nos ajuda a ver algumas coisas com mais claridade.
Ao perto perdemos muitas vezes a perspectiva...